principia a primavera,
e em minha varanda
sopra uma suave brisa,
enquanto busco a rima,
de cantar quem me encanta
mas nem toda rima é tanta
e buscando a primazia,
tem gente pinta,
tem gente que dança,
tem gente que cria,
tem gente que corre,
tem gente que anda…
faço minha parte,
escondendo a verdade,
rimando pela noite,
navego em liberdade.
aporto seguro
no cair da tarde,
descanço da lida,
aprendendo a cidade.
Oi… alô… você tá escutando… não, não desliga… não vou me alongar…
Só queria dizer que é bom e dói. É bom te ver feliz ou te imaginar feliz mesmo sem te ver. Mas na minha janela a lua hoje nasceu amarela, minha filha dorme aqui ao meu lado, um amigo voltou da Europa e vem chegando a primavera – e não há nada que traga mais esperança a alma que esperar a primavera – Milton canta uma música alegre no rádio, está chegando a hora de dormir… falta a voz, a inspiração, o cabelo e de ver o sol nascer na praia. Mas hoje cheguei em casa mais cedo e brinquei, fui pai, dei banho e pus pra dormir, a luz do abajú é amarela… Tenho lido Clarice, Pessoa, Garcia e Caio, fui ao cinema, tô aprendendo a fazer arte em oração, tenho arranhado falar inglês, mudei de emprego, conheci Montévideo… tomei duas garrafas de tequila num fim de semana, aprendi a fazer guacamole, faz tempo que não passava aqui, faz tempo que não choro, do lado de cá do atlântico se trabalha todo dia o dia todo, é bom e dói e vem chegando a primavera…
Toda vez que eu volto
Tô partindo
E no sentido exato
É por saudade
Ah! coração taí a festa
E nós
Por aí vai
Nossa colorida idade
Diga depressa com quantas paixões
Faz-se a canoa
Do amor que a gente quer
E quando eu não voltar
Acenda o mesmo lume de estrelas
Que eu deixei no teu olhar
Toda vez que eu volto
Tô partindo
E no sentido exato
É por saudade
Ah! coração taí a festa
E nós
Por aí vai
Nossa colorida idade
( para ler escutando: De Volta ao Começo – Gonzaguinha )
“Foi então que, bem lá em cima, a roda-gigante parou. Havia uma porção de luzes que de repente se apagaram – e a roda-gigante parou. Ouvimos lá de baixo uma voz dizer que as luzes tinham apagado. Esperamos. Acho que comemos pipocas enquanto esperamos. Mas de repente começou a chover: lembro que seu cabelo ficou todo molhado, e as gotas escorriam pelo seu rosto exatamente como se você chorasse. Você jogou fora as pipocas e ficamos lá em cima: o seu cabelo molhado, a chuva fina, as luzes apagadas.
Não sei se chegamos a nos abraçar, mas sei que falamos. Não havia nada para fazer lá em cima, a não ser falar. E nós tínhamos tão pouca experiência disso que falamos durante muito e muito tempo, e entre inúmeras coisas sem importância você disse que me amava, ou eu disse que te amava – ou talvez os dois tivéssemos dito, da mesma forma como falamos da chuva e de outras coisas pequenas, bobas, insignificantes. Porque nada modificaria os nossos roteiros. Talvez você tenha me chamado de fatalista, porque eu disse todas as coisas, assim como acredito que você tenha dito todas as coisas – ou pelo menos as que tínhamos no momento.”
(O Ovo Apunhalado – Do outro da tarde – Caio Fernando Abreu)
E o menino com o brilho do sol
Na menina dos olhos
Sorri e estende a mão
Entregando o seu coração
E eu entrego o meu coração
E eu entro na roda
E canto as antigas cantigas
De amigo irmão
As canções de amanhecer
Lumiar a escuridão
E é como se eu despertasse de um sonho
Que não me deixou viver
E a vida explodisse em meu peito
Com as cores que eu não sonhei
E é como se eu descobrisse que a força
Esteve o tempo todo em mim
E é como se então de repente eu chegasse
Ao fundo do fim
De volta ao começo
Ao fundo do fim
De volta ao começo
One more kiss, dear
One more sigh
Only this, dear
It’s goodbye
For our love is such pain
And such pleasure
And I’ll treasure till I die
So for now, dear
Aurevoir, madame
But I’m how-d’ye, not farewell
For in time we may have a love’s glory
Our love story to tell
Just as every autumn
Leaves fall from the tree
Tumble to the ground and die
So in the springtime
Like sweet memories
They will return as will I
Like the sun, dear
Upon high
We’ll return, dear
To the sky
And we’ll banish the pain and the sorrow
Until tomorrow goodbye
one more kiss, dear
One more sigh
Only this, dear
Is goodbye
For our love is such passion
And such pleasure
And I’ll treasure till I die
Like the sun, dear
Upon high
We’ll return, dear
To the sky
And we’ll banish the pain and the sorrow
Until tomorrow goodbye
(Trilha sonora do filme Blade Runner, 1982 – regravado por Badi Assad no álbum Wonderland, 2006)
E o que mais me impressionou foi aquela fluidez tranqüila ao falar de seu amor, fluida e tranqüila como a vida naquela pequena cidade, fluidas e tranqüilas eram as palavras, entre um trago e outro do cigarro, entre um gole e outro da cerveja, seu contar era calmo, sem o barulho, a gritaria, a embriaguez, a ânsia de vômito, as dores insuportáveis, sem a falta de ar e de chão, sem a quase solidão de si mesmo que eu aprendi a chamar de se apaixonar. Não havia dor, apenas a aceitação absoluta em não se pertencer mais só a si, apenas a aceitação absoluta de se perceber completamente definido em toda sua indecifrabilidade no olhar do outro, tudo isso que em mim seriam tempestades e tufões, ali em minha frente, entre um gole e outro de cerveja, entre uma carreira e outra de coca, sentado no sofá ou na esteira do quintal, sob o céu negro e estrelado. Durante aqueles dias mergulhei num antigo de mim e até hoje me falta ar.