
E o que mais me impressionou foi aquela fluidez tranqüila ao falar de seu amor, fluida e tranqüila como a vida naquela pequena cidade, fluidas e tranqüilas eram as palavras, entre um trago e outro do cigarro, entre um gole e outro da cerveja, seu contar era calmo, sem o barulho, a gritaria, a embriaguez, a ânsia de vômito, as dores insuportáveis, sem a falta de ar e de chão, sem a quase solidão de si mesmo que eu aprendi a chamar de se apaixonar. Não havia dor, apenas a aceitação absoluta em não se pertencer mais só a si, apenas a aceitação absoluta de se perceber completamente definido em toda sua indecifrabilidade no olhar do outro, tudo isso que em mim seriam tempestades e tufões, ali em minha frente, entre um gole e outro de cerveja, entre uma carreira e outra de coca, sentado no sofá ou na esteira do quintal, sob o céu negro e estrelado. Durante aqueles dias mergulhei num antigo de mim e até hoje me falta ar.
( Porto Nacional, 28/07/2008 )
Os ventos do norte estão movendo seu moinho.